Quando é o papel de vítima o que protagoniza a cena

Por Evelise Vincensi

Quando a gente começa a pensar nos estereótipos de vítimas e protagonistas, logo relacionamos as vítimas ao tipo de pessoas que se queixam, frágeis, sacrificados pelas situações, pelo contexto, pela sociedade, enquanto associamos os protagonistas às pessoas fortes, posicionadas, que se destacam e fazem a coisa acontecer.

Sim. Mas você já se deparou com esse perfil de vítima que banca de protagonista, roubando a cena na história? É aquele perfil crítico, que aponta as falhas dos outros como ninguém, dando a falsa impressão de que tem domínio sobre tudo e que as coisas só não dão certo porque os outros [atenção!] não são competentes o bastante. E aí a coisa vai… ou não vai, porque os outros, né?

Não é exatamente o tipo que parece frágil. É o tipo que mostra força. É influente e exerce alguma liderança, interferindo no contexto geral. O problema é que essa interferência é negativa, e muitas vezes difícil de identificar, porque vem mascarada por essa segurança convincente ao apontar falhas. E os desavisados entram nessa. Entram na onda e se acomodam, incomodados, na posição de que tudo está errado, e aí ficam, reclamando que nada muda. A energia está muito mais concentrada em criticar, do que em resolver; muito mais em reclamar, do que em melhorar; muito mais em desprestigiar, do que em valorizar. Afinal, nada nem ninguém é bom o suficiente e sempre há uma forma de encontrar algum gap que mereça ser disseminado. E como são bons os argumentos!

Quem quer fazer a diferença, realmente, protagoniza como protagonista, foca nas possibilidades e busca formas alternativas de expandi-las, assume a responsabilidade, sai de trás da cortina de fumaça, é propositivo, ativo, transpõe obstáculos, resolve. Se não dá por um caminho, vai por outro. E vai!

E aqui também não se confunda: não é preciso ter um perfil eloquente, ser um grande líder ou entusiasta: a questão é que se a atitude é protagonista, a perspectiva e a influência é positiva, o foco está na solução, na oportunidade, no avanço, ainda que o caminho não seja linear e muito menos fácil.

Então se você vem se deparando com críticas firmes, fatalistas e constantes, com negativismos imponentes, com histórias muito bem contadas que validam a teoria de que a culpa é dos outros, saiba que está assistindo o papel de vítima ser colocado no palco, para brilhar. As consequências disso? Influência negativa, desmotivação geral, paralisia, rádio-corredor, e explicações maravilhosas pela falta de evolução podem consumir a sua energia e a da organização!

Críticas, leituras sensíveis dos cenários e identificação de pontos de melhoria são, obviamente, extremamente importantes para a evolução das coisas. O fato é que não dá para ficar só nisso. Ninguém é melhor só porque consegue fazer uma leitura crítica. É preciso a coragem para fazer a mudança acontecer. Esbravejar é fácil. Virar o jogo são outros quinhentos. É preciso ter bala na agulha para sustentar uma crítica, assumi-la e promover uma mudança.Só quem faz pode ser criticado: talvez por isso alguns escolham só criticar.

Então procure prestar atenção onde você vem concentrando a sua energia: seja nas rodas de amigos, colegas, papos de almoço, happy hour, onde está o seu interesse? Qual é o tipo de conversa que você puxa e qual é o tipo de conversa que te engata? A ênfase tá no problema ou tá na solução? Isso vai ajudá-lo a se conhecer e a conhecer os demais. Às vezes a gente coloca tanta energia nos discursos, que esquece que é só com ação que as coisas mudam, e que a novela acaba!